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Thought Trips

Viagens que passam pela mente. Em meio de reflexão, exposição, informação ou relato. São viagens, experiências e histórias.

Thought Trips

Viagens que passam pela mente. Em meio de reflexão, exposição, informação ou relato. São viagens, experiências e histórias.

08
Ago20

SOZINHA

Tiana

Sozinha. Dias e dias seguidos, sem conversas nem ligações. Sem toque… físico ou verbal. Vi-me nesse momento, que talvez tenha até sido uma fase, deparada com a vida. Frente a frente com o medo de que fosse sempre ser assim. Que se tornasse assim, aliás. Dias sem datas e horas sem razão. Não tinha pessoas, não tinha compromissos. Não tinha nada além de mim. E é assustador só nos termos a nós pela primeira vez. Depender somente de nós mesmos para ocupar o nosso tempo. Faz sentido mas… o extremo assusta. Pelo menos a mim, inquieta. Li, escrevi, plantei, cozinhei, aprendi, desenhei, planeei, sonhei, exercitei e acima de tudo, me encontrei.

Tornei mais claro aquilo de que gosto e entendi que sou capaz. Capaz de muitas coisas. Capaz de me ocupar e entreter. Sou capaz de cozinhar mas só com calma. Sou capaz de escrever ideias ou histórias que não lembrariam a ninguém. Sou capaz de aprender sobre algo que realmente gosto e lutar pelo que acredito. Sou capaz de novas artes, mesmo que não muito bem mas isso só significou que sou capaz de experimentar. Acima de tudo sou capaz de experimentar e ir atrás. Mudar. Mudar o quanto for preciso (admito que demoro a fazê-lo, mas rendo-me à mudança assim que entendo o seu tempo).

Talvez esse tempo nem sempre pareça bem, ideal ou prático. A verdade é que não podemos alterá-lo. Ele é que nos altera a nós. Torna-nos aptos ao próximo nível, que disfrutaremos até à próxima mudança.

25
Jul20

Conto de Fausto

Parte 2 - Primeiro Contacto

Tiana

A reviravolta que não previa era acordar numa pele macia. Acariciado por uma jovem loira sorridente, cujos olhos eram felizmente espremidos pelas suas bochechas rosadas. As duas esferas brilhantes estavam vidradas nas pequenas patas do felino que ela segurava. A alegria era refletida no olhar como um extenso lago iluminado pelos primeiros raios veranis. No entanto, Fausto dirigia a sua visão de forma confusa. Com a mente no mesmo estado e incapaz de se mover livremente, limitava-se a analisar o que o rodeava para entender a situação em que estava envolvido.

Quando finalmente foi deixado em paz, deitado num sofá verde perto de uma janela, sentiu-se pequeno. Talvez porque o era mesmo e não conseguia parar de reparar no seu tamanho em comparação à mobília. Pensou também no quanto isso o limitava. Claramente, a este ponto tinha noção de quem era ou, melhor dizendo, o que era. Trémulo e inseguro, saltou para o chão em descoberta de outro local mais fresco. A sua temperatura corporal tornara-se insuportável naquele sol de verão a bater contra o seu pelo riscado de preto e creme. Facilmente completou a sua missão, deitando-se aos pés do sofá de onde saíra. O alívio que sentiu lembrou-o de quando saía do seu trabalho e era finalmente capaz de descansar na sua poltrona enquanto lia um bom e velho livro.

Algum tempo depois, acordado de uma sesta por uma leve vibração que percorreu a larga sala onde se encontrava, passeou ao redor da mesma. Tentativas falhadas de saltar e subir à estante de madeira escura, que dava um visual antigo ao ambiente, levaram Fausto a observar somente os livros da prateleira inferior. Ainda que não estivessem perto da sua altura tão baixa, os títulos dos livros retratavam uma biblioteca familiar. Receitas culinárias, números aleatórios da série de livros “Uma Aventura”, a temática da gravidez seguida de diversos livros com histórias para adormecer, dois ou até três romances e uma coleção sobre a época dos descobrimentos portugueses. As pequenas patas de Fausto ainda não o tinham permitido chegar ao final da comprida prateleira quando uma voz se aproxima novamente de si. Ao olhar em busca da fonte de som, depara-se na verdade com duas figuras: a jovem com os braços onde tinha acordado anteriormente e uma senhora da sua altura, cabelo igualmente claro e ar brincalhão. Demonstravam uma conversa amigável e a menina, que para o antigo Fausto seria pequena, tornava-se cada vez maior agora que se aproximava outra vez de si. Mais uma vez cheia de alegria. No entanto, limitou-se a ocupar o resto da sombra que arrefecia o felino sem estabelecer contacto com o mesmo. A conversa continuava mas Fausto não estava tão atento às palavras como qualquer um esperaria que estivesse. Deixou-se guiar pelo cheiro da humana que tinha a seu lado e atreveu-se a sentir o pelo recém-recebido contra as suas calças de ganga, que permitiam uma sensação suave e até refrescante na sua face.

Satisfeito, focou os seus pensamentos emretirar algo das falas que passavam metro e meio acima da sua cabeça. “Carla”.

12
Jun20

Corpo

Tiana

Já não me olho ao espelho. Talvez seja porque não quero ou por ter perdido o hábito. Não gosto da imagem que vejo. Imita cada movimento que faço e cada decisão que tomo. Se como mais, menos ou até mesmo nada. Se saio e me arrisco ou se me guardo e cuido. Comecei a pensar um pouco, diria mesmo deambular, sobre o assunto: não quero ver o que não me agrada mas porque é que não me tento agradar? Entendi, então, que a lógica que tinha anteriormente pensado – onde o corpo segue o que realizamos – era, na verdade, a solução. Não é fácil, admito, tomar ação. No entanto, e apesar de todos os condicionalismos possíveis enquanto humanos, o nosso corpo torna-se uma reflexão de nós mesmos. Marcas de quedas, cortes, vícios, trabalho, desleixo e a sua decoração. Tudo isto nos caracteriza. Aliás, a nossa visão sobre ele caracteriza-nos ainda mais. Acredito que não haja necessidade de nos idolatrarmos. Amarmos verdadeiramente o nosso corpo é um processo que passa essencialmente pela aceitação e conforto. O nosso ideal de corpo pode mesmo ser utópico em relação às nossas possibilidades, por isso penso que a chave seja conhecer e aceitar. O resto do processo é um caminho para moldar a nossa imagem com referência do que desejamos.

01
Jun20

A metamorfose - Kafka Franz

Tiana

                Raro é o estudante que não viu este título cruzar o seu caminho literário, no entanto, nem todos nos atrevemos – ou nos vimos dispostos – a ler as palavras de Kafka sobre Gregório. A história que nos é narrada com início na mudança que ocorreu a este personagem, ao acordar numa manhã que se destinava a ser regular como tantas outras, demonstra-nos a nova perspetiva que toma sobre a sua vida. Sem escolha ou aviso, Gregório vê-se dependente de quem antes dependia de si por conta do aspeto repulsivo em que acorda. A narrativa dá-nos a perceber os defeitos da sua família, assim como as suas intenções.

Após a leitura, que eu esperava ser mais pesada e distraída, entendi que o propósito da obra de Kafka para mim foi iluminar um pouco a visão que tinha sobre a relação entre o corpo e a mente. Quer a nível introspetivo ou social, ligamos facilmente a mente ao corpo que a hospeda. Tomo por mente todos os aspetos psicológicos, memórias, atitudes, decisões e ligações. Já o corpo é, obviamente, a nossa imagem física repleta de fatores variáveis ou não. É colocada a questão de quão razoável é esta ligação direta.

É instintivo – e diria até necessário – ao ser humano que analise primeiro o aspeto de alguém antes de tomar contacto com x mesmx. Não quero dizer em termos de discriminação geral. Dirijo-me, por exemplo, para casos em que esta “primeira impressão” serve como informação para a nossa segurança ou melhor preparação e abordagem. No entanto, Kafka coloca-nos para observação um caso onde o aspeto é alterado, ou seja, todos os personagens intervenientes na história conheciam Gregório e as suas qualidades antes da mudança de físico. Com o desenvolvimento do enredo, entendemos como até os pais e a própria irmã – tão querida pelo protagonista – se enchem de sentimentos como repulsa em consequência do aspeto que o seu familiar toma. É nítida a forma como o personagem passa de ser desejado naquela casa pelo seu trabalho para ser abominado e esquecido como filho e irmão. É aí, então, onde somos deixados pela questão colocada: por vezes, as emoções geradas pela perceção do físico eliminam o conhecimento e preocupação pela pessoa que está por trás daquele corpo. Isso acontecer, até que inconscientemente, não significa que seja aceitável ou lógico, por mais que nós o sejamos.

Talvez a narrativa vos pareça complexa, turva ou até exagerada, porém, com algumas luzes de pesquisa, conversa e ponderação sobre a leitura, torna-se clara a intenção do autor: demonstrar como o aspeto físico, por vezes, nos impede de ver e lembrar de quem está por trás do mesmo (que é bem mais importante).

Aconselho a consulta do seguinte site para uma reflexão mais profunda e abrangente: http://www.justificando.com/2016/02/16/o-que-a-metamorfose-de-kafka-pode-nos-ensinar-sobre-direitos-humanos/

29
Mai20

Conto de Fausto

Fausto

Tiana

Fausto era um homem preso numa vida rotineira e monótona, preenchida de trabalhos entre traduções e edições numa secretária estreita perto da janela do escritório. Onde a luz chegava dispersa e filtrada pelo pó, Fausto organizava as letras para que fizessem sentido para quem as lesse.

Desejava, no entanto, um dia colocar em papel algumas palavras que fizessem sentido para si. Utilizava os seus intervalos do trabalho para fumar e as rugas foram tomando o seu rosto ao longo dos anos. Demonstravam não só a idade e saúde debilitada pelo fumo, mas também as experiências e sabedoria amarguradas que Fausto carregava consigo. Simples e modesto, era um homem que se limitava a ultrapassar os obstáculos que se aventuravam a pôr-se no seu caminho. Não deixava os seus sonhos existirem soltos e livres ao seu redor. Mantinha-os numa pequena lista, obviamente mental para não os permitir alcançar uma possibilidade ilusória. Muito realista, talvez até pessimista em fase de maior dificuldade, este amante de uma vida estável não projetava o seu futuro assente em desejos. Priorizava a família, o trabalho era para o seu sustento e considerava-se privilegiado por conseguir um emprego no qual se sentisse seguro e satisfeito.

Não falava muito e preservava uma distância de quem o rodeava para que os seus problemas não ganhassem mais dimensão do que o necessário. Na verdade, requeria poucos sons para se expressar, porém, ninguém se queixava por falta de explicação. Ocupava o primeiro lugar nas chamadas de emergência dos seus amigos e era a figura com que toda a gente contava. A sua vida terminou como desejava. Calma e humilde. Somente os mais importantes o rodeavam na hora de descanso eterno.

A reviravolta que não previa era [POR CONTINUAR]

04
Jan19

...

Tiana

People deserve to know our true self regardless of the consequences. If they don't like then it depends on them (on how they decide to deal with it) but we deserve peace of mind. We deserve to go out and not be afraid of the way we enjoy to exist

19
Nov18

...

Tiana

É a chuva que cai e as gotas que ficam. Deslizam pelo vidro na janela pela qual observo algo tão puro. Ou talvez tão tóxico, junto com as memórias que trás. Passam pela mente devagar e com saudade. Saudade de tanta felicidade, porém, com iguais recordações mergulhadas em dor.

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Such as inspiration, i pretend this project to be endless. Such as a book, i pretend this project to tell stories.

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  • Sandra

    fantástica esta reflexão! Momentos nada fáceis mas...

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